Retrato: ”Empenho” é a palavra chave para a Overgaard & Dyrman

”Queremos acompanhar o trabalho até o final”. Jasper Overgaard – um dos sócios da Overgaard & Dyrman – relata o processo de produção dos exclusivos móveis da jovem dupla.

Dansk: Como surgiu a Overgaard & Dyrman?

Jasper Overgaard (JO): Christian (Dyrman) e eu nos encontramos durante os estudos de engenheira no ramo de “Arquitetura e Desenho”. Desde o primeiro dia fomos colocados no mesmo grupo e profissionalmente funcionamos bem juntos. Descobrimos cedo que trabalhávamos melhor em dupla do que em grupos maiores, e nossa dupla permaneceu firme e forte durante o restante do tempo de nossa educação. Tínhamos em comum o gosto pelo trabalho na oficina e preferir fazer atividades mais físicas a teóricas. Por esta razão mudamos para a Escola de Design da Dinamarca em Copenhagen quando acabamos os estudos de bacharelado.

Dansk: Vocês sabiam desde o começo que iriam desenhar móveis?

JO: Não, antes da universidade eu havia estudado engenharia civil na Universidade Técnica da Dinamarca. Naquela época eu tinha um sonho de ser arquiteto, mas descobri rapidamente que a matemática e a física não eram minhas disciplinas favoritas. Por isso, decidi estudar na universidade de Aalborg, onde a educação continuava sendo muito boa, mas tinha um enfoque mais técnico e prático. O Christian era ferreiro de formação e começou na universidade de Aalborg com o objetivo de ser designer industrial. Juntos, tomamos um caminho que nos levou ao universo dos móveis. Olhando para trás, os desvios que fizemos durante a nossa educação foram muito bons, porque sem dúvida ampliaram nossas qualificações. Por exemplo, eles têm sido um benefício na construção da nossa própria empresa, na nossa produção e no desenvolvimento de ferramentas.

Dansk: Como vocês dividem o trabalho?

JO: Eu uso mais tempo na fase inicial do design e no marketing e o Christian dedica-se mais ao desenvolvimento dos designs e à montagem da produção. É um pouco especial, mas desde o primeiro dia moramos em partes diferentes do país. O Christian é do norte da Jutlândia, local onde fica nossa fábrica, enquanto eu sou da Zelândia onde trabalho agora. Após muitas discussões, descobrimos que há um limite em quanto tempo devemos passar um em frente ao outro. Desta forma, a distância é boa, apesar de isso requerer muito tempo de viagem e muitas conversas telefônicas.

Dansk: Todos os móveis de vocês são produzidos na Dinamarca?

JO: Sim. No primeiro ano e meio, nós mesmos produzimos todos os móveis. Christian fez todo o trabalho metalúrgico em uma pequena oficina no norte da Jutlândia, enquanto eu fiz o trabalho de couro numa selaria nos arredores de Copenhague. É claro que é uma forma de trabalhar um pouco atípica. Nenhum outro soube produzir os nossos móveis, já que não se adaptam a uma produção tradicional facilmente. Portanto, fomos obrigados a produzi-los por conta própria. Começamos realmente desde o início, ao aprendermos o artesanato e ao desenvolvermos ferramentas, formas e soldagens especiais necessários para a produção.

Dansk: Você trabalha sozinho na fase de design?

JO: Não, em cada processo de design usamos um ao outro, pois desta forma obtemos os melhores resultados. Frequentemente sou eu quem tem as primeiras ideias e faz os rascunhos. Christian, ao contrário, é mais um tipo “Professor Ludovico” – um inventor que faz as coisas acontecerem, porque ele é muito bom neste quesito. Quer dizer, é bem provável que nunca haverá um design em nossa empresa que seja exclusivamente meu ou dele, pois cada um de nós contribui com diferentes ângulos e competências.

Dansk: Como é um dia de trabalho para vocês?

JO: No início da manhã, acho que vou fazer uma coisa e acabo fazendo outra completamente diferente. Eu acho que faz parte de ser empreendedor e por outro lado contribui para que o dia seja imprevisível e interessante. O nosso grande desafio é termos tantas responsabilidades diferentes: ser chefe de vendas e de marketing e ao mesmo tempo de operações e de design. A arte para nós é nos livrar das coisas que estão fora de nossas habilidades e interesses. Por exemplo, não fazemos mais as vendas. Temos dois ferreiros e seleiros que trabalham conosco integralmente, mas mesmo assim o Christian continua bastante envolvido na produção. Às vezes eu também vou à oficina para produzir. O nosso objetivo de longo prazo é sair da produção diária, sem a perder de vista completamente. Do meu ponto de vista, uma de nossas grandes vantagens é que dominamos o artesanato até o último detalhe. Isto faz com que sejamos capazes de entender e de desenvolver a montagem da produção. Isso também nos ajuda como designers.

Dansk: Em que preferem dedicar seu tempo?

JO: É importante para nós fazermos as grandes linhas da empresa, e a partir daí nos dedicarmos aos detalhes e ao aperfeiçoamento dos mesmos. Somos, acima de tudo, designers e “nerds” de produção, e o que realmente nos motiva é quando podemos nos aprofundar e dedicar tempo a um design. Estamos conseguindo isso cada vez mais.

Dansk: Quanto tempo demora desde o nascimento da primeira ideia até o começo da produção?

JO: Em nosso caso, demora muito. O mais interessante é quando o trabalho e o desenho tomam complexidade. Os nossos móveis não vão do primeiro rascunho direto para a produção. O interessante acontece quando não se consegue imaginar o resultado final por completo. A coleção Wire é um exemplo disso, pois os móveis são feitos de uma forma muito atípica. O emprego de diferentes tipos de couro nas partes frontal e traseira da cadeira nunca tinha sido colocado em prática na Dinamarca, apesar de ser uma técnica conhecida pelos seleiros. O nosso único problema era que o último seleiro dinamarquês havia se formado fazia 30 anos. Nós o contatamos, mas ele não foi capaz de dizer como proceder. Porém, ele nos ofereceu emprestar a sua máquina de costura e aceitamos. Após produzirmos centenas de móveis, acabamos por dominar a técnica à perfeição. As coisas que nos satisfazem e que queremos fazer no futuro requerem tempo. Não vamos desenhar candelabros da cor rosa só por estes estarem na moda.

Dansk: Para quem vocês produzem os seus móveis?

JO: Em muitos sentidos, para nós mesmos. Não começamos com um plano de negócios focado na geração de capital. Christian e eu dizíamos um ao outro que queríamos fazer móveis bons. Uma palavra chave é “empenho”. Para muitos outros designers a produção é uma restrição e é insatisfatório não poder seguir o trabalho até o fim. Em um trabalho anterior desenhei móveis de acordo com um pedido, sendo a produção feita na Ásia. Naquele trabalho acabei me vendo obrigado a comprometer a qualidade do produto para atender os compromissos firmados. Com a nossa própria produção podemos seguir o processo até o final, e só paramos quando os móveis estão de acordo com o que devem estar. Graças a Deus, há compradores para nossos móveis no mundo inteiro. Os nossos quatro primeiros distribuidores foram os de Sidney, da Suíça, de Copenhague e de São Francisco – e tudo aconteceu por si só. Nós não temos tido uma estratégia de conquistar um mercado por vez.

Dansk: O que caracteriza design dinamarquês para você?

JO: Do meu modo de ver, o design dinamarquês pode ser dividido em duas categorias: uma é aquela que também é chamada “a idade de ouro do design dinamarquês”. Ela acontece desde os anos 40 até os 60 e foi liderada pelos grandes arquitetos de móveis da época, como Finn Juhl, Poul Kjærholm e Hans J. Wegner. Dentro desta categoria também incluímos aqueles dos anos 20 e 30. Hoje, design dinamarquês é sinônimo de uma nova onda de designers e empresas focados nos produtos mais “rápidos” e “da moda”, e que contam com uma expressão minimalista escandinava.

Dansk: Em qual dos dois períodos encaixa-se melhor a Overgaard & Dyrman?

JO: Identificamo-nos mais com a primeira categoria. Da época de ouro dos anos cinquenta gostamos da estreita cooperação entre o designer e o carpinteiro dos móveis. Hoje o modelo de cooperação é tipicamente baseado nos royalties, de forma que os designers não estão ligados diretamente à produção. Eu acho que o antigo modelo era a razão pela qual se produziam tantos móveis bons naquela época. É este método que tentamos repetir ao realmente cuidarmos dos detalhes e termos empenho. Mesmo assim, os nossos móveis são bem diferentes dos móveis de madeira dos anos 50. Tentamos combinar o melhor das tradições artesanais daquela época com a tecnologia moderna do presente. Desta forma, sentimos que os nossos produtos têm uma razão de ser.

Jasper Overgaard na oficina de couro, na cidade de Roskilde, perto de Copenhague
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